segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Revoluções do Campo

-Quais as práticas de manejo devem ser realizadas em bezerros recém-nascidos?

Apresentação

   Para que a atividade de bovinocultura, neste caso a de leite, seja lucrativa, é necessária que a vaca tenha um parto por ano. Porém, não basta ter apenas um bezerro ao ano, mas fazer com que ele sobreviva.
   Com a intenção de evitar prejuízos financeiros em relação ao manejo de bezerros recém-nascidos, serão abordados nesse texto cinco manejos que devem ser dados a essa fase de criação de bovinos, sendo:
1-   Manejo pré-parto;
2-   Primeiros cuidados no pós-parto;
3-   Amamentação;
4-   Segunda semana pós-parto,
5-   Instalações.

1-Manejo pré-parto

   Os cuidados com o bezerro começam antes do seu nascimento com separação da vaca no sexto mês de gestação em um pasto maternidade.
   O pasto maternidade é o local onde a vaca permanecerá por três meses antes do parto. Este deve estar situado próximo à sede da propriedade de onde os animais podem ser observados constantemente e deve ser de acesso rápido.
   As fêmeas de primeira cria (novilhas) devem ser mantidas em pastos separados das vacas já experientes, pois vacas em trabalho de parto podem mostrar interesse por bezerros recém-nascidos de outras vacas. Considerando que normalmente as vacas mais velhas são dominantes sobre as novilhas, este tipo de interferência pode levar uma novilha a abandonar seu filhote, resultando em maior número de bezerros abandonados, que apresentam elevado risco de morte.
   Além disso, problemas durante e após o parto são mais comuns em novilhas (dificuldade para parir, falta de interesse pelo bezerro, etc.). Assim, é necessário realizar as visitas para acompanhamento dos partos com maior frequência. Isto é facilitado quando as novilhas ficam em pastos exclusivos.
   É importante que esse pasto esteja recoberto com alguma forragem, de forma que não haja formação de lama, tragam bem-estar e conforto para a vaca como o acesso adequado ao alimento, água, sombra e local seco para se deitar. 
   Devem-se tomar alguns cuidados com a alimentação e a saúde das vacas em gestação.
   Vacas mal nutrida ou gorda terão dificuldades para realizar o parto de forma normal, sendo necessária a intervenção humana.
   Com isso, a alimentação dos animais deve ser uma dieta balanceada a fim de manter um escore corporal no momento do parto.
Escore da condição corporal ao parto
Magra: < 3,0
Moderada: 3,0
Boa: 3,5 a 4,0

    A saúde do bezerro que irá nascer está condicionada à saúde de sua mãe e por isso, deve-se estar atento a ela.
   A vacina contra a brucelose, com a vacina B19, deve ser aplicada apenas em fêmeas com idade entre três e cinco meses, e no momento da vacina, identificar esses animais com marca a fogo no lado esquerdo do rosto.
   A vacinação contra a leptospirose de todos os animais (em rebanhos de incidência alta) deve iniciar em todos os bezerros de quatro a seis meses de idade, seguidas por vacinações anuais (sempre com vacinas que abrangem o maior grupo de leptospiras).
   Como vacinação estratégica, pode ser realizado um mês antes da estação reprodutiva.
   Como vacinação para a diarreia viral bovina (BVD), pode ser realizada em animais de oito a doze meses e estrategicamente um mês antes da estação reprodutiva.
   A vacinação contra a rinotraqueite infecciosa bovina (IBR) é a partir de seis meses de idade, revacinação aos dezoito meses ou antes da estação reprodutiva.
   Revacinar anualmente independente da massa corpórea ou do sexo animal.
   É importante ressaltar que não se devem vacinar animais em gestação, pois a reação antígeno-anticorpo pode não ser realizada a tempo do parto e a vaca acabar desenvolvendo a doença e acarretar problemas no feto ou mesmo aborto.
   Animais que ainda estão dentro do prazo de atuação da vacina não devem ser vacinados novamente.



2-Primeiros cuidados no pós-parto

   Normalmente as vacas parem sem qualquer auxílio. O trabalho de parto dura poucas horas.
   Sabe-se que uma vaca está em trabalho de parto quando ela se levanta e deita repetidas vezes, apresentando contrações abdominais e gemidos.
   O criador deverá procurar o auxilio de um veterinário se o trabalho de parto durar mais de 12 horas e o bezerro não tiver ainda sido expelido.
   Após o nascimento do bezerro é importante ressaltar que a matriz tem o hábito de lamber a cria, realizando a limpeza das vias respiratórias e de fazer a massagem torácica. Há casos, em que a vaca não oferece essa atenção ao bezerro, por isso o tratador deve secar e massagear o bezerro.
   Deve-se estar atento às novilhas, que são fêmeas de primeira gestação, pois podem apresentar problemas de parto ou mesmo rejeição do bezerro.
   O bezerro deve ser identificado (com tatuagem, brinco, fogo ou nitrogênio) e receber uma ficha de acompanhamento.
   Após o nascimento, o bezerro deve permanecer junto com a mãe por pelo menos 24 horas.

Colostragem


   Deve-se fornecer o primeiro produto secretado pelas glândulas mamárias da vaca após o parto que é o colostro que contém anticorpos que serão absorvidos pelo aparelho digestivo do bezerro.

   A qualidade do colostro depende do estado nutricional da vaca no pré-parto, duração do período seco ou parto prematuro e raça da vaca.


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   O bezerro nasce praticamente sem anticorpos contra os agentes de doenças. A forma de adquirir estes anticorpos (defesa) é ingerindo o colostro.


Fornecimento de colostro (colostragem)
Horário
Quantidade (litros)
Primeiras duas horas
Três
Duas horas após a primeira mamada
Três
Seis horas após a segunda mamada
Dois

   Após a sexta hora do nascimento o aproveitamento do colostro começa a diminuir.
   Em casos de falta de colostro ou custo elevado para que a vaca possa produzi-lo, o produtor pode optar por usar sucedâneo que são misturas preparadas para serem diluídas em água e utilizadas pelo recém-nascido, depois da fase de colostro, em substituição ao leite integral.
   O colostro deve ser utilizado apenas para amamentação de bezerros e não deve ser comercializado devido ao fato de ser rejeitado pelos laticínios como sendo “leite sujo”.

Cura do umbigo

   A cura de umbigo de bezerro recém-nascido é de extrema importância e pode impactar no desenvolvimento do animal. Essa cura visa secar o coto umbilical de forma a não atrair moscas e a fechar a porta de entrada a microrganismos ao corpo inteiro. Por isso, deve ser prioridade A cura de umbigo refletirá na saúde e produção do bezerro pelo resto da vida dele.
   O corte do umbigo deve ser realizado imediatamente após o nascimento sendo cortados com tesoura desinfetada com álcool três dedos no coto do animal. Não se deve segurar o coto, pois caso o bezerro se movimente ou a pessoa se mexa pode ocasionar destendimento do aparelho digestivo.
   A cura é feita com álcool iodado a 7%(o iodo age como desinfetante e o álcool como desidratante que auxilia na velocidade de secagem) em um copo com conteúdo suficiente para cobrir o umbigo durante trinta segundos. Devem ser realizadas três vezes ao dia até que o umbigo esteja completamente seco.
   Para o álcool iodado, faz-se a mistura de álcool comum e iodo a 10% na proporção de 1:1(Ex. 1 litro de álcool e 1 litro de iodo a 10%) que deve ser armazenado em recipiente escuro, pois na presença de luz solar o iodo perde as suas funções.

3-Amamentação

   Após o colostro é secretado o chamado “leite de transição”, cuja produção se estende de uma a duas semanas.
   Fornecer quatro litros por dia qualquer que seja a dieta líquida utilizada, que deverá ser fornecida em duas refeições diárias durante a primeira semana de vida do animal. A partir daí, uma vez ao dia, de manhã ou à tarde, conforme mais conveniente para o produtor.
   Existem dois tipos de amamentação: a natural (em dois tipos) e a artificial.
Tradicional: o bezerro mama durante toda a lactação, ou durante a maior parte dela. Neste caso, o bezerro deve permanecer com a vaca por um período de tempo reduzido, mas o suficiente para mamar com tranquilidade e recebe apenas o pasto como suplementação. Deve-se ficar atento para a qualidade da pastagem, principalmente a partir do quarto mês de idade do animal, quando a produção da vaca começa a declinar mais rapidamente.
Controlado: o bezerro mama por dois ou três meses. O sistema preconizado pela Embrapa (CNPGL) consiste em oferecer uma teta ao bezerro, em rodízio, durante o primeiro mês de vida. Durante o segundo mês, a ordenha é feita nos quatro tetos, sem, contudo, esgotar o ubre, deixando o bezerro mamar o leite residual. Após 60 dias de idade, o bezerro só é levado à presença da mãe se houver necessidade para a "descida do leite". Neste sistema, o bezerro deve ter à sua disposição, desde a segunda semana de idade, concentrado e volumoso de boa qualidade para compensar a redução da ingestão de leite.
Aleitamento artificial: após a fase de colostragem, o bezerro recebe a dieta líquida (leite integral ou sucedâneo) em balde ou mamadeira.
   O tempo de amamentação é definido pelo sistema de criação e pela finalidade que o bezerro terá.
   Tradicionalmente, em função de diversos resultados experimentais, tem-se adotado, como padrão, o fornecimento de quatro litros de leite integral (“maduro”) por dia.

4-Segunda semana pós-parto

   Após 14 dias de idade, os bezerros já são capazes de ingerir alimentos sólidos, que começam a contribuir para as exigências nutricionais, mas é só após o primeiro mês de vida que eles são capazes de ingerir quantidades suficientes de concentrados que irão contribuir com apreciável quantidade de energia metabólica.
  Tanto o consumo, como a qualidade do concentrado, assume grande importância na antecipação do desaleitamento de bezerros, uma vez que a substituição do leite deve ser feita por alimento sólido de elevada digestibilidade, com adequado nível proteico e energético sendo palatável o suficiente para permitir ingestão apropriada, suprindo assim as exigências dos animais.
   Tendo em vista que a desmama depende da existência de pré-estômagos funcionais, é importante restringir o uso de leite fluido na dieta, bem como fornecer, desde cedo volumosos e concentrados sólidos, os quais estimularão o desenvolvimento papilar do epitélio ruminal.
Características do concentrado inicial

   Textura grosseira - ingredientes finamente moídos reduzem o consumo podendo formar também um bolo na boca e nos lábios do bezerro provocando recusas e consequentemente perda do alimento;
   Sabor adocicado - que pode ser conseguido com a adição de 7 a 10% de melaço;
   Variedade de ingredientes - melhora a aceitabilidade por parte do animal;
   Nível baixo de fibra (6 a 7%) e alto em energia - o concentrado deverá suprir as necessidades energéticas do bezerro quando este for desaleitado;
   Níveis adequados de proteína (16 a 18%), minerais e vitaminas.

   Após a desmama, a ingestão de concentrado aumentará rapidamente, devendo-se limitar a quantidade fornecida para estimular o consumo de volumoso. A quantidade de concentrado fornecida dependerá da qualidade dos alimentos volumosos disponíveis e dos objetivos da exploração, principalmente da idade desejada para a primeira parição. Normalmente, limita-se a 1 ou 2 kg de concentrado com 12 a 16% de proteína bruta, por animal por dia, até os seis meses de idade.
   Ressalta-se ainda a necessidade de se renovar, com frequência, o concentrado colocado no cocho, principalmente nas primeiras semanas de vida do bezerro.
   Deve-se começar o fornecimento a partir de pequenas quantidades e aumentar gradativamente de acordo com o consumo observado. Alimentos molhados e mofados são menos consumidos e podem provocar distúrbios digestivos.
Fornecimento de volumosos

   Apesar de o consumo ser baixo no início da vida do animal, deve-se colocar, desde cedo, à sua disposição, volumosos de boa qualidade sabendo-se que bons fenos são melhores que bons alimentos verdes picados, que, por sua vez, são melhores que boas silagens. Antes dos três meses, o uso de alimentos fermentados, como silagens, não é recomendado, uma vez que o consumo será insuficiente para promover o desenvolvimento do rúmen e o crescimento do animal. A combinação de feno e silagem pode ser usada a partir dos dois meses de idade, se conveniente.
   Bons fenos constituem-se no melhor alimento para bezerros, tendo em vista a constância na sua aparência, sabor, composição e boa palatabilidade, assegurando ingestão razoável de matéria seca. Os alimentos verdes também são excelentes, principalmente quando se utilizam forrageiras tenras, sendo o único problema sua inconstância em termos de qualidade podendo assim, ocasionar consumo irregular.
5-Instalações

   Tradicionalmente, considera-se que as instalações destinadas a abrigar bezerros devem reduzir os efeitos deletérios dos fatores ambientais, tais como vento, altas e baixas temperaturas e umidade do ar.
   Também é fundamental a manutenção de boas condições de higiene e sanidade, pois, caso contrário, a incidência de doenças e a taxa de mortalidade aumentarão drasticamente, comprometendo a eficiência da criação. Instalações úmidas, pouco ventiladas e com elevada umidade relativa do ar acarretam prejuízos muito maiores do que a ausência de instalações em criações onde os animais permanecem desabrigados.
   Destaca-se, também, a necessidade de evitar a excessiva população de bezerros na mesma dependência, notadamente quando o ambiente é mal ventilado. O que se recomenda é o alojamento individual dos bezerros nos primeiros 60 dias de vida, tendo em vista restringir o instinto de mamar uns nos outros e assegurar melhor controle do consumo individual da ração.
   As instalações para bezerros leiteiros podem variar amplamente, desde as mais simples tais como criações coletivas em piquete, até dependências individuais com controle de temperatura e umidade. Coletivas ou individuais encontram-se baias de diversas formas, construídas com diversos materiais, dotadas de diferentes tipos de pisos e camas e com variados dispositivos de alimentação.
   Nos rebanhos não especializados, onde há necessidade da presença do bezerro ao pé da vaca durante a ordenha, também é frequente o emprego inadequado de locais contíguos à sala de ordenha, onde os bezerros são alojados coletivamente, sem se levar em conta diferenças individuais de idade ou de higidez, concorrendo assim para o baixo desempenho da exploração.
   O uso contínuo de uma mesma instalação pode elevar a taxa de mortalidade por aumento da incidência de diarreias e outras doenças. A exalação de amônia, por deficiência na higienização e ventilação dos bezerreiros convencionais, é também outro fator que contribui para o aparecimento de problemas respiratórios.
   Muitos pecuaristas têm abandonado as instalações convencionais para a estabulação de bezerros em razão da contínua incidência de problemas sanitários. A principal opção adotada foi o uso de abrigos individuais móveis (cabanas), normalmente de menor custo que os bezerreiros convencionais, e que se mostram associados com maior consumo de concentrados e melhor desempenho dos bezerros.
   Além de permitir o controle do instinto de mamar uns nos outros, o emprego dos sistemas móveis apresenta as seguintes vantagens: redução da incidência de doenças infecciosas, devido à facilidade de translocação; facilidade de inspeção e tratamento, em caso de doenças e, principalmente, bom controle da alimentação, baixos custos e facilidade de construção.
   O que se procura, dentro do sistema de criação, é baratear ao máximo os custos de produção.
Tipos de instalações

   Casinha tropical: possui telhado duplo, no qual a camada de ar entre duas telhas de zinco forma um isolante térmico; é leve, o que facilita sua movimentação; propicia um ambiente arejado e seco. Possui estrutura em madeira, com suporte para balde de água, comedouro e fenil em seu interior, sem paredes laterais favorecendo a ventilação e o controle da umidade.
   Sistema Argentino: os animais são presos a arames esticados em frente aos cochos de água e concentrado. Neste modelo, permite-se maior movimentação do bezerro e maior dispersão dos dejetos (urina e fezes), que não se amontoam em um mesmo lugar. Portanto, não é necessário mudar o animal de lugar devido ao acúmulo de matéria orgânica. Tal sistema pode ser a opção mais indicada, quando não se dispõe de área suficiente para mudar os animais de lugar periodicamente.
   Tradicionais: de alvenaria ou madeira, onde os animais são alojados em boxes individuais fixos com área de 1,50 a 1,80 m², instalados no interior de galpões. Nesses boxes individuais é comum o uso de piso ripado suspenso, que facilita a limpeza e reduz a exposição do bezerro à umidade.
   Adaptação de galpões inativos existentes na fazenda: nos quais os animais nem sempre encontram condições apropriadas de temperatura, umidade e ventilação, daí podendo advir significativa incidência de doenças. A associação de alta umidade relativa ao ar e baixa temperatura ambiente é a maior responsável pela ocorrência de pneumonia em bezerros até 60 dias de idade.
   Estacas individuais localizadas em piquete: tais estacas, às quais os animais são atados por corrente envolta em mangueira, não apresentam qualquer proteção climática, sendo provido apenas de fenil, balde para concentrado e balde para leite e água. As estacas normalmente são deslocadas dentro do piquete, a cada três dias, dando condições de pastejo e recuperação da pastagem.
   Piquetes: os bezerros são criados de forma coletiva e separados por faixa etária para minimizar o risco de doenças.  O ideal seria a separação em categorias, de acordo com a idade: zero a 30 dias, 30 a 60, 60 a 120, etc. Até 30 dias, as diarreias e os problemas respiratórios são os maiores desafios para os bezerros, enquanto que de 30 a 120 dias os problemas serão, na maioria das vezes, a tristeza parasitária e os problemas respiratórios. Desta forma, os lotes de bezerros devem ser pequenos para garantir boa observação e minimizar a promiscuidade entre os animais. Além disso, é importante enfatizar que a densidade animal vai ter um forte impacto sobre a saúde dos animais. Quanto mais jovens são os animais, menor deve ser a densidade nos lotes de bezerros.

   Bezerreiros duplos: instalação consiste em um alojamento para dois bezerros, porém sem contato físico e mantidos a distância por correntes. Os abrigos podem ser construídos com diversos tipos de materiais, sendo eles os bambus, madeiras, sombrites, lonas, entre outros. As medidas empregadas normalmente são: altura: 1,10 m; largura: 1,10 m e comprimento: 1,80 m.

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